23/09/2026 - 23:01 - Gerais
O Bate-Papo com Jordan Bezerra desta quarta-feira (23) teve como convidada a psicóloga Gabrielle Brito, que conversou sobre saúde mental, prevenção ao suicídio, Setembro Amarelo, sinais de alerta, busca por ajuda profissional, influência da fé e os desafios enfrentados pelas famílias na atualidade.
Natural de Patos, Gabrielle contou inicialmente um pouco de sua trajetória. Ela se formou em Psicologia pelo Centro Universitário de Patos (UNIFIP) e, posteriormente, trabalhou no Rio Grande do Norte, em Natal. Depois de alguns anos, retornou a Patos, conhecida como a Capital do Sertão, onde passou a desenvolver sua atuação profissional.
Durante a conversa, a psicóloga destacou a importância do Setembro Amarelo, campanha de conscientização e prevenção ao suicídio que ganhou força no Brasil a partir dos anos 2010. Segundo Gabriele, a mobilização tem contribuído para ampliar o debate sobre saúde mental e incentivar as pessoas a procurarem ajuda, mas ressaltou que o cuidado não deve ficar restrito ao mês de setembro e precisa fazer parte da rotina durante todo o ano.
Outro ponto abordado foi o tabu que ainda existe em torno da procura por profissionais da saúde mental. Gabrielle explicou que, durante muito tempo, buscar um psicólogo, fazer psicoterapia ou procurar um psiquiatra esteve associado a preconceitos, mas essa realidade vem sendo modificada gradualmente.
Ela relatou, inclusive, uma mudança que percebeu ao longo de aproximadamente dez anos desde sua formação. No início de sua carreira, a maioria de seus pacientes era formada por mulheres. Atualmente, segundo a psicóloga, aumentou significativamente a procura de homens interessados em cuidar da própria saúde mental.
Gabrielle também explicou que é importante diferenciar uma tristeza passageira de um quadro que merece maior atenção. Uma tristeza mais profunda, persistente e prolongada pode estar relacionada a situações que precisam ser avaliadas por um profissional, especialmente quando aparecem outros sintomas associados, como ansiedade ou sinais de depressão.
A psicóloga chamou atenção ainda para os sinais que podem ser apresentados pelo próprio corpo e pelo comportamento. Irritabilidade frequente, tristeza, isolamento, dificuldade ou falta de vontade de conversar sobre o que está acontecendo e uma rotina vivida permanentemente no chamado “piloto automático” podem indicar que algo não está bem.
Ela citou como exemplo pessoas que passam a vida apenas trabalhando, sem momentos de lazer ou convivência familiar. Para Gabrielle, esse desequilíbrio precisa ser encarado como um sinal de alerta e não deve ser ignorado.
Ao falar sobre a necessidade de compartilhar as dores, a psicóloga também fez uma ressalva: nem sempre é necessário ou adequado falar sobre problemas pessoais com qualquer pessoa. O importante, segundo ela, é escolher alguém que realmente possa contribuir para aquele processo de enfrentamento.
Gabrielle também orientou que as redes sociais não sejam utilizadas como espaço para expor indiscriminadamente sofrimentos e dores emocionais. Para ela, é necessário buscar canais seguros de acolhimento e pessoas preparadas para oferecer suporte.
Questionada sobre como agir quando alguém precisa de ajuda, mas se recusa a procurar um médico ou profissional da saúde mental, a psicóloga explicou que não é possível obrigar uma pessoa a receber atendimento. Entretanto, familiares e amigos podem tentar uma aproximação gradual, oferecer apoio e buscar alternativas para estimular a procura por ajuda, sem abandonar a pessoa e, ao mesmo tempo, respeitando seus limites.
Durante a entrevista, o jornalista Jordan Bezerra também perguntou sobre a influência da fé e da religião na saúde mental, especialmente quando vividas de maneira equilibrada, sem fanatismo. Gabrielle afirmou que a espiritualidade pode exercer um papel positivo e citou estudos que relacionam a existência de uma crença ou de algo ao qual a pessoa possa se apegar a aspectos do enfrentamento emocional.
Segundo ela, independentemente da religião, acreditar em um ser superior pode ajudar algumas pessoas a lidar com questões como perdão, angústia e até sentimentos como o ódio. A psicologia pode oferecer ferramentas para o cuidado emocional, mas, na avaliação da profissional, a religião pode alcançar dimensões íntimas da experiência humana que também são importantes nesse processo.
Gabrielle ressaltou, porém, a importância de que a fé seja vivenciada de maneira saudável. Quando bem conduzida, afirmou, ela pode ser uma importante fonte de apoio.
A psicóloga também comentou sobre pacientes que chegam ao consultório sem o mesmo brilho no olhar, sem alegria e apresentando aquilo que definiu como “desesperança”. Para ela, quando uma pessoa perde o gosto e a percepção de cor pela própria vida, trata-se de um importante sinal de alerta que precisa ser observado e cuidado o quanto antes.
Outro assunto discutido foi a chamada “geração do mimimi”. Gabrielle questionou a própria expressão e propôs uma reflexão sobre a responsabilidade dos adultos na formação das novas gerações: se existe uma geração considerada mais frágil, seria necessário também perguntar quem participou da formação dessas pessoas.
Nesse contexto, ela apontou fatores como o excesso de telas e a facilidade de acesso a computadores e smartphones. Segundo a psicóloga, alguns pais acabam utilizando os dispositivos como forma de ocupar os filhos, mas deixam de acompanhar adequadamente o conteúdo e o tempo de exposição.
Gabrielle reconheceu que a rotina atual é marcada por trabalho, dificuldades e uma série de responsabilidades, mas defendeu que os pais precisam manter atenção à educação e ao desenvolvimento emocional dos filhos. Na avaliação dela, a ausência desse acompanhamento pode produzir consequências negativas no futuro.
Na sequência, a psicóloga falou sobre o acesso aos serviços de saúde mental. Ela destacou que atualmente muitos municípios contam com psicólogos, que, mesmo quando não atuam diretamente na modalidade clínica, podem oferecer orientação e encaminhar os pacientes para os serviços adequados.
Ela também citou as clínicas-escola, inclusive instituições particulares, como alternativas para quem busca atendimento psicológico. Segundo Gabrielle, atualmente existem mais possibilidades de acesso a profissionais da área do que havia no passado.
Ao final da entrevista, a psicóloga agradeceu pelo espaço e destacou a importância da comunicação na conscientização e na defesa da vida. Gabrielle afirmou ser admiradora do trabalho de comunicação e considerou importante a aproximação entre o jornalismo, a divulgação de informações e a discussão sobre saúde mental.
Ela deixou ainda uma mensagem direcionada às pessoas que estejam desanimadas ou enfrentando dificuldades emocionais dentro de casa. A orientação foi para que procurem ajuda, conversem com familiares, busquem atividades de lazer e tentem romper com uma rotina marcada exclusivamente pelo trabalho e pelo chamado “piloto automático”.
Para Gabrielle Brito, encontrar equilíbrio é fundamental para a vida humana e deve fazer parte do cuidado com a saúde mental.
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