De Bolsonaro a Lula: a metamorfose política de Julian Lemos

07/09/2026 - 11:40 - Política

Compartilhe:
De Bolsonaro a Lula: a metamorfose política de Julian Lemos

De Bolsonaro a Lula: a metamorfose política de Julian Lemos

Prefeitura Patos - PB

 

Ex-coordenador da campanha de Bolsonaro no Nordeste rompeu com o bolsonarismo, aproximou-se da esquerda e chega a 2026 disposto a mostrar que mudar de posição também pode ser resultado de experiência e reflexão.


Há oito anos, Julian Lemos estava nas ruas trabalhando para eleger Jair Bolsonaro presidente da República. Em 2026, aparece ao lado de lideranças do PT, dialoga com o campo progressista e chega a posar para uma fotografia com o presidente Lula. Entre uma imagem e outra existe uma trajetória marcada por ascensão, ruptura, decepções e uma profunda mudança na maneira de enxergar a política brasileira.


Chamar Julian de “o progressista mais progressista” de 2026 carrega, evidentemente, uma provocação. Mas é justamente o contraste que torna sua trajetória politicamente singular. Não se trata de alguém que observou o bolsonarismo à distância e posteriormente decidiu combatê-lo. Julian esteve dentro. Participou da campanha de 2018, conviveu com personagens centrais daquele movimento e ajudou a construir a vitória eleitoral de Bolsonaro.

 

Foi dessa posição privilegiada que começou também seu rompimento.


Ao lado do então ministro Gustavo Bebianno, Julian passou a demonstrar frustração com os rumos do governo que ajudara a eleger. Na avaliação que passou a manifestar publicamente, as bandeiras de moralidade, honestidade e renovação política que haviam mobilizado parte do eleitorado em 2018 não resistiram à realidade encontrada dentro do poder.


A ruptura não aconteceu de uma vez. Foi um processo.


Julian passou a criticar comportamentos do presidente, a influência da família Bolsonaro e a dinâmica política estabelecida no governo. Bebianno, um dos personagens fundamentais da campanha presidencial de 2018, também rompeu com o núcleo bolsonarista. Para Julian, aquela experiência ajudaria a modificar definitivamente sua percepção sobre o movimento do qual havia participado.

 

A morte de Bebianno, em 2020, representou um divisor de águas pessoal e político. A partir daquele período, a distância de Julian em relação ao bolsonarismo tornou-se cada vez mais evidente e, posteriormente, irreversível.


Quem esteve dentro passou a falar sobre o que viu


Essa talvez seja hoje uma das características mais particulares do discurso de Julian Lemos. Quando fala sobre o bolsonarismo, ele não se apresenta apenas como adversário político. Fala como alguém que participou daquele ambiente, conheceu seus principais personagens e acompanhou por dentro uma parte importante de sua formação.


Suas críticas são duras.


Julian rejeita, inclusive, a ideia de um “bolsonarismo moderado”. Em sua avaliação, o radicalismo não seria um desvio isolado do movimento, mas parte de sua própria estrutura política. Ele também associa esse comportamento à dificuldade de seus integrantes em admitir erros, questionar decisões de Jair Bolsonaro ou analisar criticamente as atitudes dos integrantes da família do ex-presidente.


É uma leitura construída por alguém que um dia acreditou no projeto.

 

E talvez esteja exatamente aí o peso de sua transformação.


É fácil permanecer a vida inteira defendendo as mesmas posições e transformar coerência em imobilidade. Mais difícil é confrontar as próprias escolhas, reconhecer mudanças de percepção e aceitar o custo público de rever aquilo que um dia se defendeu.


Julian escolheu o segundo caminho.


Psicologia, espiritualidade e política


Depois da ruptura, a transformação não ficou restrita à filiação ou às alianças partidárias. Julian passou a estudar psicologia, buscou conhecimento espiritual e mergulhou em um processo que descreve como amadurecimento pessoal e intelectual.

 

A mudança política veio acompanhada dessa revisão.


Ideias que talvez permanecessem adormecidas encontraram espaço diante da nova leitura que passou a fazer do Brasil. Seu discurso também mudou. Continuou contundente, característica que sempre marcou sua atuação pública, mas passou a incorporar experiências pessoais, episódios vividos nos bastidores e reflexões sobre comportamento, poder e radicalização.


Julian não fala do passado como se nunca tivesse pertencido a ele.


Ao contrário: utiliza justamente esse passado para sustentar seus argumentos atuais.


É uma diferença importante.


Em vez de apagar 2018, ele transforma aquele período em parte central de sua narrativa política. O argumento passou a ser, essencialmente, o de quem conheceu, acreditou, participou, decepcionou-se e mudou.


A ponte com o campo progressista


O distanciamento da direita bolsonarista abriu caminho para uma aproximação que, anos atrás, pareceria improvável.

 

Julian passou a estabelecer diálogo com dirigentes e lideranças nacionais do PT e do campo progressista. Nesse movimento, esteve em Brasília para encontros políticos e aproximou-se de nomes da direção petista, entre eles Edinho Silva e Gleisi Hoffmann.

 

A fotografia com Lula tornou-se a representação mais simbólica dessa travessia.

 

A imagem reúne dois personagens que, em 2018, estavam em campos políticos absolutamente opostos. Mais do que uma fotografia, ela sintetiza visualmente o tamanho da transformação de Julian.

 

O antigo coordenador da campanha de Bolsonaro agora conversa com o presidente que representa justamente o campo político que o bolsonarismo transformou em seu principal adversário.

O preço de mudar

 

Uma transformação dessa dimensão evidentemente produz reações.

 

Nas redes sociais, Julian passou a receber ataques de antigos aliados e de seguidores do bolsonarismo. Para quem interpreta política exclusivamente como identidade permanente, mudar de posição é frequentemente tratado como traição.

Mas existe outro público.

 

Ele tenta dialogar justamente com eleitores moderados, pessoas cansadas da polarização permanente e brasileiros que não enxergam obrigação de concordar integralmente com um campo político para reconhecer seus acertos ou criticar seus erros.

 

É nesse espaço que Julian tenta construir sua nova identidade.

 

Seu progressismo não é apresentado como submissão automática a um partido ou liderança. Pelo contrário: ele busca sustentar a imagem de alguém que preserva independência para discordar, argumentar e rever posições quando considerar necessário.

 

Isso ajuda a compreender a provocação de chamá-lo hoje de “o progressista mais progressista”.

 

Não porque Julian tenha passado a carregar uma cartilha ideológica debaixo do braço, nem porque sua história anterior tenha desaparecido. Justamente pelo contrário. Sua trajetória tornou-se peculiar porque a transformação ocorreu depois de uma experiência profunda no outro extremo do ambiente político brasileiro.

 

Julian Lemos de 2026 não precisa apagar Julian Lemos de 2018 para explicar quem se tornou.

 

Precisa confrontá-lo.

 

Sua história política recente carrega uma mensagem pouco valorizada em tempos de posições cristalizadas: ninguém é obrigado a permanecer intelectualmente no mesmo lugar apenas para provar coerência.

 

Pessoas aprendem. Pessoas se decepcionam. Pessoas reavaliam escolhas. Pessoas mudam.

 

Na política também deveria ser assim.

 

Talvez a maior transformação de Julian Lemos não seja ter caminhado de Bolsonaro até Lula. Seja ter descoberto, no meio desse percurso, que mudar de ideia não significa necessariamente abandonar princípios.

 

Às vezes, significa reconstruí-los.

 

 

Comunica pb